06 julho 2007

Candle light - Um tributo ao Carlos


Este texto foi escrito em memória de um amigo muito querido, que já não está aqui em corpo.

Pediste-me que te encontrasse, ao final da tarde, debaixo da enorme árvore no fundo da rua. Achei estranho o local, pois nunca nos tínhamos encontrado lá, nem sequer sabia bem onde era. Mas a minha intuição levou-me até lá à hora combinada. Lá estavas tu, pontual como sempre, à sombra da árvore, a fumar um cigarro. Estavas com uma roupa que nunca te tinha visto, uma túnica branca comprida e calças largas de linho, do mais branco que já vi. Olhei para o teu pulso para ver se o relógio também combinava com a roupa, mas não estavas a usar relógio. Olhei-te para os pés, mas não os consegui ver, porque as longas calças de linho tos tapavam.
Sorriste quando me viste aproximar. Corri para ti e abracei-te. Nunca um abraço me soube tão bem, Estar de novo contigo era como voltar a nascer, sentir-me, de novo, de volta a um porto de abrigo que sempre soube que estava à minha espera quando precisasse. Os teus olhos entraram dentro de mim e beijaste-me o rosto, como tantas vezes tinhas feito, acarinhando-me e enchendo-me de luz. Não abriste a boca, mas ouvi as tuas palavras. Inexplicavelmente, também falei contigo sem mover os lábios. Os sorrisos continuavam nos nossos rostos enquanto uma comunicação telepática se desenrolava e me deixava cada vez mais feliz. Deixaste-me falar das minhas dores, dos meus medos, das minhas conquistas. Abraçaste-me quando chorei e te contei como o meu coração estava despedaçado e encheste-me de luz rosa,
Sentámo-nos à sombra da árvore e colocaste-te à minha frente. Olhaste fixamente para mim e pareceu-me ver uma lágrima descer pelo teu rosto. Tentei limpá-la, mas não a senti. Era como se a tua lágrima fosse apenas visível e não pudesse ser tocada. Olhei de novo para ti e vi-te sorrir. Seguraste as minhas mãos e beijaste-as, colocando-as no meu peito, a proteger o meu coração. Olhei para o chão e vi os teus pés descalços a uns centímetros do chão. Estavas a voar! Olhei para as tuas mãos e vi uma grande bola de luz dourada, na qual flutuavam imagens dos nossos melhores momentos juntos. O que se estava a passar? Não conseguia entender... Até que num segundo, atiraste a bola de luz ao ar e formou-se um arco-íris brilhante que nos envolveu. Olhei para ti e entendi. A luz brilhava no horizonte. Tinha chegado o momento. O teu momento. Vi-o nos teus olhos, nem foi necessário que mo dissesses. Agora era no meu rosto que corria uma lágrima triste e solitária. Mas esta, eu sentia-a, ardia-me ao deslizar pela minha cara. Pegaste num feixe de luz do teu arco-íris e levaste-o ao meu coração, iluminando a minha tristeza e fazendo com que a dor se transformasse em entendimento.
Abracei-te e olhei para ti mais uma vez, antes de te deixar ir. O teu sorriso continuava o mesmo, iluminando a minha vida. O halo de luz que te cercava fez-me lembrar a luz de uma vela numa divisão escura. Aconchegante. Confortante.
Voltei do lugar onde nos encontrámos com a consciência de que estavas no melhor lugar do mundo. Todos os dias penso em ti e vejo-te em cada vela que acendo numa divisão escura. Sei que estás sempre perto daquela árvore, onde posso ir sempre que quiser matar saudades, e onde me observas, carinhosamente, zelando para que o meu caminho seja o mais ameno possível. Um beijo, meu anjo.

2 comentários:

Piquinha disse...

Ola Prof...estive a ler isto e como deve calcular fez.me um bocado de confusão! Isto e' msmo real?..Bjinhu

clarisse lourenço disse...

sem palavras... maravilhoso...
T.A.!
:)